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terça-feira, 20 de maio de 2014

Antologia Virtual





Ofício de amar

já não necessito de ti 
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste 
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras 
                                                                                                    [galáxias, e 
                                                                                                       [o remorso 

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio 
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração 
não, não preciso mais de mim 
possuo a doença dos espaços incomensuráveis 
e os secretos poços dos nómadas 

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto 
deixei de estar disponível, perdoa-me 
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo 


Al Berto, “O Medo”

terça-feira, 15 de abril de 2014

Antologia Virtual






   Solidão


A solidão é como uma chuva. 
Ergue-se do mar ao encontro das noites; 
de planícies distantes e remotas 
sobe ao céu, que sempre a guarda. 
E do céu tomba sobre a cidade. 

Cai como chuva nas horas ambíguas, 
quando todas as vielas se voltam para a manhã 
e quando os corpos, que nada encontraram, 
desiludidos e tristes se separam; 
e quando aqueles que se odeiam 
têm de dormir juntos na mesma cama: 

então, a solidão vai com os rios... 

Foto: Solidão

A solidão é como uma chuva. 
Ergue-se do mar ao encontro das noites; 
de planícies distantes e remotas 
sobe ao céu, que sempre a guarda. 
E do céu tomba sobre a cidade. 

Cai como chuva nas horas ambíguas, 
quando todas as vielas se voltam para a manhã 
e quando os corpos, que nada encontraram, 
desiludidos e tristes se separam; 
e quando aqueles que se odeiam 
têm de dormir juntos na mesma cama: 

então, a solidão vai com os rios... 

-Rainer Maria Rilke-  "O Livro das Imagens"



-Rainer Maria Rilke- "O Livro das Imagens"

sexta-feira, 28 de março de 2014

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“O auto-conhecimento é uma coisa muito difícil, é como os cães, que roem ossos mas não roem os seus próprios ossos.”





Give the Dog a Bone - by Mike Jackson


 Afonso Cruz, em "Jesus Cristo bebia cerveja"




domingo, 9 de março de 2014

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Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

     Mariano, um jovem universitário, regressa à sua terra-natal, Luar-do-chão,
por motivos de falecimento de seu avô.
     No entanto, quando lá chega, redescobre uma voz mística, sensacional e independente oriunda do interior da terra e que ele vai reaprendendo a escutar e a sentir.
     Com efeito, Mariano encontra na ilha onde havia nascido anos antes um novo sentido para a sua vida.
     À medida que isso se vai sucedendo, confronta-se ainda com a não-morte do seu avô
que, teimando em não falecer, permanece num estranho mais-que-coma.
     Enquanto aguarda pelo funeral, recebe ainda visitações do outro lado do mundo, sob a forma de cartas que lhe devolvem uma espiritualidade e um modo de vida que ele já tinha perdido.
     Um livro genial, profundamente poético e incisivo, através do qual somos transportados para uma zona de confrontos entre a maioria rural e uma elite urbana que vão medindo forças
no atual contexto moçambicano e que nos lembra, como só Mia Couto o sabe fazer, a importância da terra, da vida, das tradições e dos valores primordiais.  

"O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora"
(dito mariano, personagem da obra "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, mia couto, caminho)

Texto: André Santos Oliveira

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

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Não me peçam razões...

Não me peçam razões, que não as tenho, 
Ou darei quantas queiram: bem sabemos 
Que razões são palavras, todas nascem 
Da mansa hipocrisia que aprendemos. 

Não me peçam razões por que se entenda 
A força de maré que me enche o peito, 
Este estar mal no mundo e nesta lei: 
Não fiz a lei e o mundo não aceito. 

Não me peçam razões, ou que as desculpe, 
Deste modo de amar e destruir: 
Quando a noite é de mais é que amanhece 
A cor de primavera que há-de vir. 

José Saramago, in "Os poemas possíveis
A painting of Isaac Newton done by William Blake in 1795.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

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Sabedoria do mundo

Não fiques em terreno plano.
Não subas muito alto.
O mais belo olhar sobre o mundo
Está a meia encosta.


Romantic hot air balloon ride -- Nicole Wong

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

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contabilidade

venho para te cortar os
dedos em moedas pequenas e
com elas pagar ao coração o
mal que me fizeste

o pior amor é este, o que já é
feito de ódio também. o pior amor
é este, o que já é feito de ódio também. o
pior é o amor é este, o que
já é feito de ódio também

Valter Hugo Mãe, in "contabilidade", Objetiva 




sábado, 8 de fevereiro de 2014

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Tradutor de Chuvas

Um lenço branco
apaga o céu.

A fala da asa
vai traduzindo chuvas:
não há adeus
no idioma das aves.

O mundo voa
e apenas o poeta
faz companhia ao chão.



Mia Couto, in "tradutor de chuvas", Caminho

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

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“-Porque é que, no silêncio da noite, nos assusta falar em voz alta? Nunca fizeste essa experiência? (...) Era preciso fazê-la. Mergulhados no silêncio nocturno, sentimo-nos não existir.” 

Vergílio Ferreira, in "Aparição" 



Lonely Night Walking by ParallelDeviant

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Poema para o meu amor doente


Hoje roubei todas as rosas dos jardins
E cheguei ao pé de ti de mãos vazias.


Eugénio de Andrade, in "As mãos e os frutos"