Bem-vindo ao Blogue das Bibliotecas Escolares do agrupamento da Maia!

domingo, 17 de fevereiro de 2019

É um poema... apenas!














Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia passou por aqui!

Comemorações do centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2019)

Com a atividade "Sophia passou por aqui", a EB 2,3 de Gueifães, pretende evocar a figura única e especial de uma "autêntica princesa da literatura portuguesa"

Urbana ou natural, lusitana ou helénica
S
alta aos olhos na poesia de Sophia a sua inalterável unidade dentro do múltiplo. É sempre uma voz — implacavelmente única e muito nossa conhecida — que fala em seus poemas, invariavelmente surgidos, apesar disso, à distância de toda e qualquer constrição temática. A sua poesia é atemporal ou histórica, atlântica ou mediterrânea, urbana ou natural, lusitana ou helénica, política ou subjectiva, mas sempre se manifesta por tal voz única, que nunca se repete. Subjacente a tudo isso, através de tudo o que escreveu, essa consciência trágica da desaparição, do exílio da beleza do mundo a que estamos condenados, muito dolorida por muito sóbria, que talvez seja um dos fundamentos dessa mesma unidade.
 
O mar é o grande cerne de sua obra, o do Algarve ou o da Grécia, outra grande obsessão sua. Mais visual que musical — embora alcançasse seus maiores momentos quando unia essas duas postulações num todo irretocável — poderia situar-se geneticamente mais para a linha de Cesário Verde do que para a de Camilo Pessanha, não fosse tudo isso falsificações práticas que tentam escamotear a grande musicalidade de Cesário e a espantosa visualidade de Pessanha. Os poemas menos conseguidos de Sophia são, no entanto, aqueles, geralmente mínimos, em que o elemento sonoro parece renunciar a acompanhar o outro, e o complexo milagre do poema curto — que geralmente se resolve numa iluminação ou redunda em fracasso — não se cumpre totalmente, tangenciando às vezes o prosaico, coisa que aconteceu em um ou outro de seus poemas militantes, logo após o 25 de Abril, que lhe deram grande notoriedade em Portugal, mesmo se não fossem dos maiores momentos de sua obra.

 Alexei Bueno, 2004

Sophia passou por aqui!

Comemorações do centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2019)



Com a atividade "Sophia passou por aqui", a EB 2,3 de Gueifães, pretende evocar a figura única e especial de uma "autêntica princesa da literatura portuguesa"

O mar único de Sophia

S
 ophia de Mello Breyner Andresen, ou simplesmente Sophia, como era universalmente referida em Portugal, fazia parte, quando do seu muito recente falecimento, de uma espécie de grupo canónico, indiscutido, clássico, dos grandes poetas portugueses vivos, em companhia de Herberto Helder, de Eugénio de Andrade, de António Ramos Rosa, de Mário Cesariny, talvez de muitos poucos outros. Mais velha deles todos, era ainda o grande nome feminino da poesia portuguesa contemporânea. A sua obra, relativamente curta, distingue-se fortemente da de todos os poetas citados, com a excepção talvez da de Eugénio de Andrade, com quem mantinha similitudes. De facto, a sua poesia, essencialmente dominada pelo poema curto, em nada se aproxima dos grandes ciclos poéticos de seu amigo Herberto Helder, nem da pletora quase grafomana de António Ramos Rosa, nem do apelo ao inconsciente de Mário Cesariny. Essencial, clara, cristalina, tudo o que escreveu confirma uma mundivisão ao mesmo tempo uma estética e uma ética, um desejo quase romântico de fusão de vida e obra, que exemplarmente cumpriu.

Alexei Bueno, 2004

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Uma reflexão por dia... que bem te fazia!


É um poema... apenas!

Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia passou por aqui!

Comemorações do centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2019)

Com a atividade "Sophia passou por aqui", a EB 2,3 de Gueifães, pretende evocar a figura única e especial de uma "autêntica princesa da literatura portuguesa"




Lisboa - 06 de Dezembro de 1998
Sophia premiada

A escritora não escondeu a sua emoção ao receber das mãos de Fernando Pinto do Amaral o prémio atribuído pela Fundação Luís Miguel Nava ao livro "O Búzio de Cós e Outros Poemas".
Ao distinguir este livro, o galardão sublinha, mais uma vez, uma obra poética ímpar, que, na oportunidade, Gastão da Cruz definiu como "uma poesia exemplar", de "uma firmeza de discurso nobre e depurado". 
Sophia de Mello Breyner Andresen acentuou, por seu turno, quanto lhe era gratificante um prémio que pretende "lembrar a presença de um jovem poeta entre nós".
 
 
© 1998 Diário de Notícias

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Uma reflexão por dia... que bem te fazia!


É um poema... apenas!


Poesia


Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.



Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia passou por aqui!

Comemorações do centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner (1919-2019)

Com a atividade "Sophia passou por aqui", a EB 2,3 de Gueifães, pretende evocar a figura única e especial de uma "autêntica princesa da literatura portuguesa"


"Sophia contempla na sua escrita, o jogo dos quatro elementos primordiais, nomeadamente: Terra, água, ar e fogo.
Com estes quatro elementos, Sophia, busca a beleza poética e o fascínio, com o intuito de celebrar a vida, o reencontro com os nossos antepassados e, ainda, a relação do ser humano com a vida, com os outros e com o próprio mundo.
Na poesia de Sophia podemos encontrar, ainda, vários aspectos importantes e curiosos, tais como o “fascínio pela pureza original e pela agitação cósmica”, “o feitiço exercido pela água”, “o poder da invocação e da memória” (que permite tornar presente o ausente e o distante) e, para finalizar, “a palavra como agente de transfiguração da realidade…”.
A poesia de Sophia tem, ainda, inseridos alguns sentimentos, ideias e “maneiras de ver as coisas” de um modo diferente e poético. Podemos terminar, dizendo que, na sua escrita, a autora busca a ordem do mundo, a modelação do caos para a criação do cosmos; conserva e reforça, continuamente, uma relação com o mar, o vento, o sol, a luz e a terra; é feita de compromissos com a realidade objectiva; o mar é o símbolo da vida e da morte; apresenta um papel formativo ao promover a consciencialização; busca na lição grega, não apenas, um legado cultural, mas sobretudo, os seus ideais, estética e razão.
Finalizo dizendo que, emerge uma função mágica que nos leva a compreender a fragilidade humana".

Sem autor, 1999

Sophia passou por aqui!

Comemorações do centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen(1919-2019)

Com a atividade "Sophia passou por aqui", a EB 2,3 de Gueifães, pretende evocar a figura única e especial de uma "autêntica princesa da literatura portuguesa"


Há 20 anos, quando Sophia completou 80 anos!
Oitenta rosas para Sophia
Por Alexandra Lucas Coelho, PÚBLICO, 06 de Novembro, 1999

Sophia é uma forma absoluta de estar no mundo à espera das coisas belas. Cresceu entre rosas nocturnas e manhãs de mar. Escreveu desde o princípio. Lutou com a palavra, quando foi preciso. Não teve medo. Continuamos a aprender com ela. Faz hoje 80 anos.

As rosas


Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen
"Dia do Mar" (1º ed. Ática 1947, incluído no vol. I da "Obra Poética", ed. Caminho)


Era mesmo assim, como no primeiro verso deste poema: noite escura, a jovem Sophia saía para o jardim da avó, semi-abandonado, colhia braçadas de rosas e trazia-as para casa. Punha-as numa jarra, frente à janela do seu quarto. E, enquanto escrevia, desfolhava-as e trincava-as. Não é preciso perguntar porquê: o poema diz. 

O que apetece hoje, dia em que Sophia de Mello Breyner Andresen faz 80 anos, é levar-lhe uma braçada de rosas para ela pôr junto à sua janela, com vista para o jardim que Gonçalo Ribeiro Telles desenhou, e para o rio. Na casa da Travessa das Mónicas, em Lisboa, de que Sophia tanto gosta e onde vive praticamente desde que deixou o Porto e veio para Lisboa. 

Foi precisamente no Porto que nasceu, na Quinta do Campo Alegre, numa casa grande, sempre cheia de irmãos - João Henrique, Thomaz e Gustavo - , de primos - entre eles, Ruben A. -, de tios, de avós, rodeada de um parque enorme, tão grande que se podia caçar (...)