Bem-vindo ao Blogue das Bibliotecas Escolares do agrupamento da Maia!

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Um poema para começar o dia!

Verdes são os Campos

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

              Luís de Camões

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Um poema para começar o dia!


Os livros

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo “eu” entre nós e nós?

Manuel António Pina
in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Um poema para começar o dia!



E ALEGRE SE FEZ TRISTE

Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno agosto.

Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.

A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.

E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.


Manuel Alegre
O canto e as armas
Europa-América
1979

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Um poema para começar o dia!



UM AMIGO

Esta noite deitei-me triste.
Abri um livro, passei uma folha, outra folha,
quando cheguei ao fim, tinha o coração cheio
de folhas e de flores.

Matilde Rosa Araújo "O Cantar da Tila"

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Um poema para começar o dia!


A AMIZADE DOS TEUS OLHOS

A amizade dos teus olhos recompensa
De tanto dia inutilmente escuro!
As tuas mãos repetem nos seus gestos
A água feliz dos meus vales sombrios.

A tua voz sabe a férias, mora no fundo
Dos segredos evidentes da infância.


Mal chegas, mal partes. Como o tempo,
Como os comboios no túnel imprevisto,
Como um sorriso, como as coisas perfeitas.

Alberto de Lacerda, in "Oferenda"
Ática 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Um poema para começar o dia!



Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aqui.


Cecília Meireles

Um poema para começar o dia!


OS GRANDES AMIGOS

São como as árvores 
de grande porte.
Quando elas partem
as raízes ficam
aquém da morte.

Luís Veiga Leitão, in "Rosto por Dentro"
Afrontamento  

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Um poema para começar o dia!


Não Posso Adiar o Amor
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda

sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o rneu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração!

António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Um poema para começar o dia!



APENAS UM RUMOR

E no teu rosto aberto sobre o mar
cada palavra era apenas o rumor
de um bando de gaivotas a passar.


Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa (1940-1980),
Limiar

domingo, 8 de outubro de 2017

Um poema para começar o dia!



SE CANTASSE

Se cantasse, talvez o coração
Sossegasse no peito.
Mas vou perdendo o jeito
de cantar.
A vida, devagar,
Leva-nos tudo,
E deixa-nos na boca o gosto de ser mudo.

Miguel Torga, Antologia Poética, Coimbra