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Lícinia Quitério |
chegou o tempo bruto de sentirmos
iguais as horas do sono e da vigília
assim é porque nas ruas
ninguém passa ou passa
com os olhos atados ao chão
a boca inexistente igual
à boca inexistente de outro alguém
no corpo oblíquo uma pressa
de chegar ao lugar vazio
de fugir do desenho do ogre
que espreita em cada esquina
seja noite escura ou dia claro
vive-se a gramática dos verbos
sem modo e sem tempo
e já ninguém se atreve a dizer amanhã
porque só hoje existe
e ontem foi o jardim das delícias
que deixaram este travo
de fruta há muito amadurecida
temos medo que a memória
não guarde os gestos de abraçar
ou de beijar ou simplesmente
de aflorar a pele de um outro rosto
com as polpas dos dedos
trementes de aflição
assim vamos vivendo
dia sim amor não.
Licínia Quitério