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terça-feira, 17 de abril de 2018

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"


Livre

Não há machado que corte
http://olhares.sapo.pt/a-raiz-do-pensamentoler
A raiz ao pensamento
Não há morte para o vento
Não há morte

Se ao morrer o coração
Morresse a luz que lhe é querida
Sem razão seria a vida
Sem razão

Nada apaga a luz que vive
Num amor num pensamento
Porque é livre como o vento
Porque é livre.

Carlos de Oliveira, “O nosso amargo cancioneiro”

segunda-feira, 16 de abril de 2018

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

CHAMAVA-SE CATARINA
Cantar Alentejano (em memória de uma camponesa assassinada)

Chamava-se Catarina,
O Alentejo a viu nascer;
Serranas viram-na em vida,
https://www.meloteca.com/portugal-poesia-e-musica-alentejo

Baleizao a viu morrer.


Ceifeiras na manha fria
Flores na campa lhe vao pôr;
Ficou vermelha a campina
Do sangue que entao brotou.


Acalma o furor campina,
Que o teu pranto nao findou!
Quem viu morrer Catarina
Nao perdoa a quem matou.


Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si,
O Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti!


Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar;
O Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar!


Letra: António Vicente Campinas
Interpretado por Zeca Afonso 

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Liberdade

Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
https://www.mensagenscomamor.com
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga

domingo, 15 de abril de 2018

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Portugal Ressuscitado
https://www.pinterest.pt

Depois da fome, da guerra
da prisão e da tortura
vi abrir-se a minha terra
como um cravo de ternura.

Vi nas ruas da cidade
o coração do meu povo
gaivota da liberdade
voando num Tejo novo.

Agora o povo unido
nunca mais será vencido
nunca mais será vencido
Vi nas bocas vi nos olhos
nos braços nas mãos acesas
cravos vermelhos aos molhos
rosas livres portuguesas.

Vi as portas da prisão
abertas de par em par
vi passar a procissão
do meu país a cantar.

Agora o povo unido
nunca mais será vencido
nunca mais será vencido

Nunca mais nos curvaremos
às armas da repressão
somos a força que temos
a pulsar no coração.

Enquanto nos mantivermos
todos juntos lado a lado
somos a glória de sermos
Portugal ressuscitado.

Agora o povo unido
nunca mais será vencido
nunca mais será vencido.

José Carlos Ary dos Santos

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

CANTATA DA PAZ

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
"Vemos, ouvimos e lemos"
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D'África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 14 de abril de 2018

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Menina Dos Olhos Tristes
http://media.rtp.pt/cancoesdaguerra/artigos/


Menina dos olhos tristes
o que tanto a faz chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Vamos senhor pensativo
olhe o cachimbo a apagar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Senhora de olhos cansados
porque a fatiga o tear
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Anda bem triste um amigo
uma carta o fez chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho
do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar.

Zeca Afonso

sexta-feira, 13 de abril de 2018

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

Cartaz de Vieira da Silva
Abril de Sim Abril de Não

Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.

Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.

Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.


Manuel Alegre
30 Anos de Poesia
Publicações Dom Quixote

quinta-feira, 12 de abril de 2018

LS2 - Alice Vieira

O “LS2 – Leituras, Sentidos e Saberes” é um projeto cultural concebido e desenvolvido pela rede de Bibliotecas da Maia.
Este evento, iniciado em 2007, proporciona à comunidade educativa o contato com obras e/ou autores de grande notoriedade nacional e internacional. Este projeto cultural, cujo público-alvo é a comunidade educativa Maiata de todos os níveis de ensino, resulta numa exposição dos trabalhos, patentes na Biblioteca durante o mês de abril, resultantes da leitura e interpretação da obra do autor e num espetáculo que se realiza no Grande Auditório do Fórum da Maia, para cerca de 1500 pessoas. 
Este espetáculo é o momento triunfal em que as crianças e jovens, desde o jardim-escola ao secundário, oferecem um espetáculo a toda a comunidade e à escritora homenageada, que este ano é Alice Vieira. Cumpre-se,assim, o desígnio deste projeto: a promoção e consolidação de hábitos de leitura.
Data espetáculo: 19 de abril

Gratuito.
Consultar programa aqui!

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"


A cantiga é uma arma

A cantiga é uma arma
e eu não sabia
tudo depende da bala
e da pontaria
tudo depende da raiva
e da alegria
a cantiga é uma arma
de pontaria

há quem cante por interesse
há quem cante por cantar
há quem faça profissão
de combater a cantar
e há quem cante de pantufas
para não perder o lugar

O faduncho choradinho
de tabernas e salões
semeia só desalento
misticismo e ilusões
canto mole em letra dura
nunca fez revoluções

a cantiga é uma arma· (contra quem?)
Contra a burguesia
tudo depende da bala
e da pontaria
tudo depende da raiva
e da alegria
a cantiga é uma arma
de pontaria

Se tu cantas a reboque
não vale a pena cantar
se vais à frente demais
bem te podes engasgar

a cantiga só é arma
quando a luta acompanhar

Uma arma eficiente
fabricada com cuidado
deve ter um mecanismo
bem perfeito e oleado
e o canto com uma arma
deve ser bem fabricado

a cantiga é uma arma  (Contra quem camaradas?)
Contra a burguesia
tudo depende da bala
e da pontaria
tudo depende da raiva
e da alegria

a cantiga é uma arma
de pontaria!
        
Compositor: José Mário Branco
Interpretação: GAC – Grupo de Acção Cultural
1975

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"

"25 de Abril: 44 anos - 44 poemas"




O Dia da Liberdade

25 de Abril

Este dia é um canteiro
com flores todo o ano
e veleiros lá ao largo
navegando a todo o pano.
E assim se lembra outro dia febril
que em tempos mudou a história
numa madrugada de Abril,
quando os meninos de hoje
ainda não tinham nascido
e a nossa liberdade
era um fruto prometido,
tantas vezes proibido,
que tinha o sabor secreto
da esperança e do afecto
e dos amigos todos juntos
debaixo do mesmo tecto.

José Jorge Letria in O livro dos dias (AMBAR)